Já faziam algumas semanas que Clarinha visitou o bar do seu Mané Portuga pela primeira vez, desde que deixará aquela vila que ela secretamente odiava. Assim como Bolinha, Maria Clara Alves e Soares era, ao seu jeito, também uma sobrevivente. Quando pequena, apesar de toda a beleza que viam nela ali na vila, Clarinha não podia se dar a luxos, tinha que ajudar sua mãe a batalhar, vendendo as coxinhas e outros salgadinhos que dona Maria das Dores preparava e colocava na mão dos filhos para conseguirem faturar um dinheiro e defender o pão de cada dia, os cigarros inseparáveis de sua mãe e acima de tudo a pinga e os outros vícios de seu padrasto. Nessa altura vale ressaltar, que apesar da pinga e dos vícios de Pedro Quente, ele era um homem que amava dona Maria das Dores, amava ao seu jeito, e a respeitava, também ao seu jeito. Sempre a tratava com respeito, nunca levantou a mão para ela ou suas filhas e muito menos tentou botar a mão onde não devia. Dona Maria das Dores sustentava seus vícios porque o amava também ao seu jeito, e achava que devia ajudar a cobrir as necessidades do seu homem, assim como ele cobria as suas quando conseguia realizar seus trabalhos, os quais se resumiam essencialmente a pequenos golpes e eventualmente um assalto a banco ou outro.
A vida de Clarinha começou a mudar aos 17 anos, quando caminhava pelas ruas da Vila Madalena após ter entregue uma encomenda dos salgadinhos que sua mãe havia preparado foi abordada próximo ao metro por um jovem. A princípio achou que fosse outra das milhares de abordagens que recebia pela rua, mas logo percebeu que por mais bonita que fosse não era bem o tipo de pessoa que despertaria interesse em seu interlocutor, Jairo. Jairinho, como gostava de ser chamado, era olheiro para uma pequena agência de modelos que muitas vezes alavancava talentos para as grandes agências. Apartir dali a vida de Clarinha mudou radicalmente, se mudando para um apartamento que a agência mantinha ali na própria vila para seus jovens talentos, aparecendo em algumas propagandas e comerciais. Clarinha estava nas nuvens até perceber que sua fantasia tinha um problema. Ela era mais velha que as meninas que começam nessa carreira e logo viu que não consguiria alçar grandes vôos.
O problema de se acostumar a um padrão de vida, é que se temos que baixá-lo encontramos sérios problemas, e logo Clarinha descobriu isso também.
Aos 20 anos já não podia ser mais considerada um jovem talento, e teve que deixar o apartamento da agência. Os trabalhos iam rareando, e mal davam para pagar o aluguel de seu novo apartamento, muito menos para comprar os mimos que tanto gostava.
A primeira vez que sua amiga Sônia insinuou ter a saída para os problemas financeiros de Clarinha ela se fingiu de ofendida, entretanto a verdade era que Maria Clara quando mais nova, ainda na casa da sua mãe havia conseguido algum dinheiro extra com alguns parceiros de trabalho de seu padrasto após alguns assaltos e golpes bem sucedidos, sem que sua mãe ou mesmo seu padrasto desconfiassem.
A falsa indignação de Clarinha sumiu completamente no primeiro trabalho que Sônia arranjou. A moralidade costuma ser flexível, sempre temos mecanismos para aliviar a consciência e justificar nossos atos, e para alguns se torna mais flexível ainda. Clarinha já possuía milhares de justificativas para sua vida, e seu principal argumento era que moralismos a parte, quem pagava suas contas ela era mesma, então quem pode realmente julga-la?
Em pouco tempo Maria Clara conseguiu reestabelecer e até melhorar um pouco seu padrão de vida, mas ainda achava que merecia muito mais. E esses pensamentos andavam bem fortes em sua cabeça na época que reencontrou Jurandir.
Clarinha estava tomando um Cosmopolitan, drink que achava chique e aprendera a tomar assistindo aquele seriado sobre a jornalista que lhe servia como modelo de inspiração e aspiração, em um badalado e descontraído speakeasy no subsolo de um badalado barzinho na badalada boemia da Vila Madalena quando alguém se aproxima discretamente:
- Posso te pagar outro cosmo?
Clarinha se vira sorrindo de forma simpatica e avaliando seu interlocutor. Era um rapaz que aparentava ser pouco mais velho que ela, com um terno bem cortado, provavelmente de alfaiataria, cabelo bem aparado, barba propositadamente por fazer. Tinha traços duros, mas ao mesmo tempo bastante elegante e, porque não, atraente. – Será que devo? – Retrucou se esforçando para parecer ao mesmo tempo tímida e disponível.
- Tenho certeza que aguenta muito mais que isso, Clarinha. – O sorriso que se expandiu no rosto do homem contrastou com a cara de espanto que Maria Clara não conseguiu segurar.
- Mas como… – Então uma luz de reconhecimento atravessou seu olhar. Ela já tinha visto aqueles olhos anos antes, menos duros e experientes, mas com a mesma sede e fome. – Jurandir?
- Achei que iria demorar mais para me reconhecer. Como vai?
Nesse momento cabe esclarecer quem é Jurandir, ou Jura como era conhecido no meio dos “companheiros de trabalho” de seu padrasto. Jurandir era um jovem duro, que desde cedo começou a acompanhar vigaristas, golpistas e assaltantes. Em pouco tempo já era aprendiz de ladrão e eventual motorista para seu padrasto. Isso era o que Clarinha sabia da época em que ainda tinha contato com o que acontecia a sua mãe e seu padrasto, mas Jura agora alçava voos muito mais altos que seu padrasto jamais tentou. Se tornara assaltante de bancos profissional, tinha sua própria quadrilha e ia atrás de esquemas cada vez mais elaborados. E era com planos ousados que ele abordava agora Maria Clara.