A Balada de Clarinha e Bolinha… parte 2

Publicado: outubro 9, 2011 em Contos

Já faziam algumas semanas que Clarinha visitou o bar do seu Mané Portuga pela primeira vez, desde que deixará aquela vila que ela secretamente odiava. Assim como Bolinha, Maria Clara Alves e Soares era, ao seu jeito, também uma sobrevivente. Quando pequena, apesar de toda a beleza que viam nela ali na vila, Clarinha não podia se dar a luxos, tinha que ajudar sua mãe a batalhar, vendendo as coxinhas e outros salgadinhos que dona Maria das Dores preparava e colocava na mão dos filhos para conseguirem faturar um dinheiro e defender o pão de cada dia, os cigarros inseparáveis de sua mãe e acima de tudo a pinga e os outros vícios de seu padrasto. Nessa altura vale ressaltar, que apesar da pinga e dos vícios de Pedro Quente, ele era um homem que amava dona Maria das Dores, amava ao seu jeito, e a respeitava, também ao seu jeito. Sempre a tratava com respeito, nunca levantou a mão para ela ou suas filhas e muito menos tentou botar a mão onde não devia. Dona Maria das Dores sustentava seus vícios porque o amava também ao seu jeito, e achava que devia ajudar a cobrir as necessidades do seu homem, assim como ele cobria as suas quando conseguia realizar seus trabalhos, os quais se resumiam essencialmente a pequenos golpes e eventualmente um assalto a banco ou outro.

A vida de Clarinha começou a mudar aos 17 anos, quando caminhava pelas ruas da Vila Madalena após ter entregue uma encomenda dos salgadinhos que sua mãe havia preparado foi abordada próximo ao metro por um jovem. A princípio achou que fosse outra das milhares de abordagens que recebia pela rua, mas logo percebeu que por mais bonita que fosse não era bem o tipo de pessoa que despertaria interesse em seu interlocutor, Jairo. Jairinho, como gostava de ser chamado, era olheiro para uma pequena agência de modelos que muitas vezes alavancava talentos para as grandes agências. Apartir dali a vida de Clarinha mudou radicalmente, se mudando para um apartamento que a agência mantinha ali na própria vila para seus jovens talentos, aparecendo em algumas propagandas e comerciais. Clarinha estava nas nuvens até perceber que sua fantasia tinha um problema. Ela era mais velha que as meninas que começam nessa carreira e logo viu que não consguiria alçar grandes vôos.

O problema de se acostumar a um padrão de vida, é que se temos que baixá-lo encontramos sérios problemas, e logo Clarinha descobriu isso também.

Aos 20 anos já não podia ser mais considerada um jovem talento, e teve que deixar o apartamento da agência. Os trabalhos iam rareando, e mal davam para pagar o aluguel de seu novo apartamento, muito menos para comprar os mimos que tanto gostava.

A primeira vez que sua amiga Sônia insinuou ter a saída para os problemas financeiros de Clarinha ela se fingiu de ofendida, entretanto a verdade era que Maria Clara quando mais nova, ainda na casa da sua mãe havia conseguido algum dinheiro extra com alguns parceiros de trabalho de seu padrasto após alguns assaltos e golpes bem sucedidos, sem que sua mãe ou mesmo seu padrasto desconfiassem.

A falsa indignação de Clarinha sumiu completamente no primeiro trabalho que Sônia arranjou. A moralidade costuma ser flexível, sempre temos mecanismos para aliviar a consciência e justificar nossos atos, e para alguns se torna mais flexível ainda. Clarinha já possuía milhares de justificativas para sua vida, e seu principal argumento era que moralismos a parte, quem pagava suas contas ela era mesma, então quem pode realmente julga-la?

Em pouco tempo Maria Clara conseguiu reestabelecer e até melhorar um pouco seu padrão de vida, mas ainda achava que merecia muito mais.  E esses pensamentos andavam bem fortes em sua cabeça na época que reencontrou Jurandir.

Clarinha estava tomando um Cosmopolitan, drink que achava chique e aprendera a tomar assistindo aquele seriado sobre a jornalista que lhe servia como modelo de inspiração e aspiração, em um badalado e descontraído speakeasy no subsolo de um badalado barzinho na badalada boemia da Vila Madalena quando alguém se aproxima discretamente:

- Posso te pagar outro cosmo?

Clarinha se vira sorrindo de forma simpatica e avaliando seu interlocutor. Era um rapaz que aparentava ser pouco mais velho que ela, com um terno bem cortado, provavelmente de alfaiataria, cabelo bem aparado, barba propositadamente por fazer. Tinha traços duros, mas ao mesmo tempo bastante elegante e, porque não, atraente. – Será que devo? – Retrucou se esforçando para parecer ao mesmo tempo tímida e disponível.

- Tenho certeza que aguenta muito mais que isso, Clarinha. – O sorriso que se expandiu no rosto do homem contrastou com a cara de espanto que Maria Clara não conseguiu segurar.

- Mas como… – Então uma luz de reconhecimento atravessou seu olhar. Ela já tinha visto aqueles olhos anos antes, menos duros e experientes, mas com a mesma sede e fome. – Jurandir?

- Achei que iria demorar mais para me reconhecer. Como vai?

Nesse momento cabe esclarecer quem é Jurandir, ou Jura como era conhecido no meio dos “companheiros de trabalho” de seu padrasto. Jurandir era um jovem duro, que desde cedo começou a acompanhar vigaristas, golpistas e assaltantes. Em pouco tempo já era aprendiz de ladrão e eventual motorista para seu padrasto. Isso era o que Clarinha sabia da época em que ainda tinha contato com o que acontecia a sua mãe e seu padrasto, mas Jura agora alçava voos muito mais altos que seu padrasto jamais tentou. Se tornara assaltante de bancos profissional, tinha sua própria quadrilha e ia atrás de esquemas cada vez mais elaborados. E era com planos ousados que ele abordava agora Maria Clara.

Bolinha era como quase todos conheciam e chamavam João dos Santos. Ele ganhou esse apelido dos amigos do seu pai que diziam que ele parecia com um apresentador de um programa televisivo que ele nunca nem tinha visto. O fato de chamarem seu pai de “Bola Sete” só contribuía para que o apelido pegasse mais facilmente. Mas digam o que for, Bolinha era um sobrevivente. Acordava cedinho pegava ônibus, trem, metro, tudo para começar sua jornada de trabalho que era dividida entre a correria para ajudar no balcão da lanchonete que ele trabalhava de manhã, a entrega dos marmitex encomendados na hora do almoço, a volta para casa onde aproveitava para fazer um bico vendendo DVDs piratas e o fim da noite no bar do seu Mané Portuga onde ajudava no balcão a servir a cervejinha, os torresminhos e os ovinhos coloridos para os antigos companheiros de copo do seu pai. O  “seu Bola Sete” havia falecido há alguns anos, devido a bebedeira, péssima alimentação e problemas com o representante local da banca do bicho, não necessariamente nessa ordem. O fato é o que o falecimento prematuro de seu pai obrigou Bolinha a ajudar sua mãe a sustentar e criar seus dois irmãos.

Um dia desses, ou melhor uma noite dessas, quando estava na reta final de sua cansativa jornada de trabalho, no bar do seu Mané Portuga, começaram os eventos que iriam mudar sua vida para sempre. Nesse momento é importante citar que como todo mundo, Bolinha tinha seu ponto fraco, que fazia perder a razão e o juízo. Seu pai por exemplo era fã da bebida e do jogo, já Bolinha não resistia a um rabo de saia, ainda mais se esse rabo de saia permitisse uma aproximação dele, afinal como os que se lembram do “Programa do Bolinha” devem imaginar, ele não era nenhum exemplo de beleza. Beleza essa que sobrava em Maria Clara, ou Clarinha como era conhecida. Clarinha havia nascido ali na vizinhança mesmo, e sempre fora a criança mais linda do pedaço. Acabou sendo descoberta por uma pequena agência e virou modelo de eventos e esporadicamente fazia algum anuncio de loja, shopping, entre outras coisas. As más línguas dizem que virou modelo e acompanhante, das caras acrescentavam. Raramente era vista por aqueles lados nos dias de hoje, mas essa noite apareceu sozinha e sentou no balcão do bar do seu Mané Portuga. Fez um sinal para Bolinha que por mais que tentasse não conseguia desgrudar os olhos de Clarinha ali vestindo uma blusinha tomara que caia e um jeans justíssimo.

- Pois não, dona? – Perguntou bolinha despertando do seu transe.

- Traz uma Original para mim? -  Clarinha ofereceu seu melhor sorriso para Bolinha que quase caiu de costas.

- Xi, dona! Num tem essa não.

- Então traz uma Braminha mesmo.

Bolinha virou-se de costas apenas o suficiente para pegar a cerveja na geladeira, pegou um copo americano que certificou-se estar bem limpo e serviu a cerveja no copo para Clarinha, coisa que nunca fazia.

- Obrigada, Bolinha. – Uma cara de surpresa, espanto e por que não, felicidade tomou conta do rosto de bolinha o que divertiu Clarinha.

- De nada, dona Clarinha. – Respondeu encabulado desviando o olhar para os potes de ovo colorido em cima do balcão de formiga.

- Me chama de Clarinha, né Bolinha? – Clarinha sorriu e Bolinha pode perceber como eram lindos seus dentes braquinhos, retinhos e todos ali.

Até o fim do expediente ali no bar do seu Mané Portuga pareceu um sonho para Bolinha. Clarinha ficou ali conversando com ele até o bar fechar, parando apenas nos momentos em que Bolinha precisava atender algum freguês, que era secretamente amaldiçoado pelo balconista. A noite teve esse rítimo até o  bar fechar, quando Bolinha acompanhou Clarinha até a porta da casa de sua mãe e ganhou um beijo no rosto de despedida. Bolinha estava nas nuvens. Mal podia acreditar no que havia acontecido.

Fim da parte 1

Escrevendo novas “mídias”…

Publicado: outubro 26, 2010 em Elocubradas

Sabe qual o grande problema em escrever um roteiro de filme, ou uma peça de teatro? Pelo menos para mim, é claro. A mudança de paradigma. A forma de escrita, as regras de formatação, tudo muda. No começo pensei em escrever na forma que estou acostumado, como prosa, e depois transcrever, mas desisti. Desisti pois o Syd Field fala que quem muda de uma tipo de escrita para outro deve evitar a todo custo isso, para não correr o risco de desistir no meio. Portanto cá estou eu, sofrendo. Sofrendo e regozijando, pois o processo é lento, mas praieiros. Divertido. Enriquecedor. Em breve vocês devem ouvir novidades sobre isso… Ou não.

Tentando sobreviver na blogsfera…

Publicado: outubro 18, 2010 em Elocubradas

Murando para viver!

Cansei do layout antigo do blog, resolvi mudar… Radicalizar…

Agora vou tentar voltar a escrever mais nessa época de mudanças prometendo acontecer.

Noite de lua…

Publicado: agosto 17, 2010 em Contos

Nelson caminhava sem muita direção, mas com uma certa melancolia nos olhos baixos. Já tinha caminhado boa parte da Paulista e agora andava sem rumo pela região, meio em direção ao Bexiga, ou a Bela Vista, já não sabia mais bem. Quando avistou um misto de padaria com boteco sentiu uma pontada de sede na garganta. Não daquelas sedes que se matam com água, mas com certeza uma cerveja seria uma boa companhia. Talvez a única que ele precisasse agora.

Passou pela calçada apinhada de pessoas em pé tomando cerveja com um copo e uma garrafa na mão e pelas poucas mesas na calçada, alcançando o interior do lugar viu que era bem maior do que parecia de fora. Várias mesinhas vazias com um ou dois gatos pingados no salão. Mais ao fundo um pequeno palco com um karaokê tocando sozinho em meio a luzes coloridas piscastes. Avançou até o meio do balcão e se sentou.

- O que vai ser? – Perguntou o balconista passando o pano no balcão de alumínio amassado.

- Uma original.

O balconista vai até uma geladeira e pega uma garrafa. Ao mesmo tempo um senhor que estava em uma das mesas do lugar vai até o pequeno palco com o microfone do karaokê, aperta alguma coisa na máquina e um som de sintetizador preenche o salão antes de a voz desafinada começar a tentar acompanhar a melodia cantando “Renúncia” de seu “xará” Nelson Gonçalves . O balconista coloca a garrafa e um copo americano na mesa, despertando Nelson do transe induzido pela péssima interpretação musical.

- Mais alguma coisa?

Nelson sente seu estômago protestar ligeiramente, olha para o cardápio pendurado na parede por um instante e resolve pedir um misto quente. Começa a bebericar sua cerveja sem grande interesse quando percebe uma figura extremamente expansiva entrar no salão. É um senhor de uns cinqüenta anos, vestido de forma quase caricata, lembrando um daqueles malandros de filme antigo. Ele observa enquanto a curiosa figura avança pelo salão cumprimenta quase todos os comensais do ambiente, acena para o desafinado cantor e se senta ao lado de Nelson no balcão.

- Tudo bem, doutor? – O balconista cumprimenta o recém chegado enquanto já vai servido uma dose de vinho de uma qualidade surpreendentemente boa para o ambiente.

- Vamos indo, João, vamos indo. – O “doutor” toma um gole do vinho e grita. – Tudo certo aí, Chico?

O chapeiro que estava entretido com o a confecção do misto quente de Nelson apenas acena com o pegador em sua mão sem nem se virar. – Você vai gostar do misto do Chico. – Comenta agora se dirigindo para Nelson que olhava estoicamente para o nada.

- Hum?

- Qual o nome dela?

- Ela quem?

- A garota pela qual voce está sofrendo.

- Como sabe que o misto é para mim?

- Porque o povo lá fora está beliscando porções, aqui dentro só bebe, sobra você. Então? Qual o nome dela?

- Por que acha que tem alguma garota?

- Olhe onde voce está.

Nelson olha para os dois lados. – Tem bastante gente nova ali.

- É, lá fora, para ver, ser vista, paquerar. Fazendo esquenta como vocês falam, não é? Você está aqui dentro. E não acho que seja um entusiasta de karaokê.

Nelson continua olhando meio contrariado para seu interlocutor, e percebe uma mudança em seu olhar, quase como se tivesse sido arrebatado por uma revelação. Olha Nelson de cima a baixo. – Ou será que é o nome dele?

Nelson arregala os olhos. – Não! – Desviando o olhar responde. – Luana.

- Bonito nome. Meio lunático. – afirma meio sorrindo.

- Péssima piada. – Retruca logo antes de matar o copo em um gole só.

- Gaetano – estendendo a mão.

Nelson aperta a mão, um aperto de mão firme de ambos. – Nelson.

- Então, Nelson. Foi hoje?

- Uns dois anos já. – Responde matando outro copo de cerveja em um gole.

Gaetano faz um gesto para o balconista que traz mais uma cerveja juntamente com o misto quente. Serve a cerveja nos dois copos enquanto Nelson pega o misto quente de forma desinteressada.

- Dois anos? Bastante tempo para sofrer assim. Devia ser uma mulher e tanto.

- É. – interrompe a mordida olhando pensativo para o queijo derretido. – Acho que era sim.

A musica volta a um volume baixo quando a sofrível interpretação chega ao fim.

- Data especial?

- Meu aniversario foi semana passada.

- Agora voce me perdeu.

Nelson desvia seu olhar ao ouvir um som de passos no salão e se surpreende ao ver uma jovem moça, de cabelos compridos presos em um rabo de cavalo, de uma beleza clássica cruzar o salão com uma postura firme, passos decididos até o palco do karaokê, sendo seguida por olhares, inclusive o de Nelson.

- O que tem seu aniversário? – Gaetano pergunta, despertando Nelson de seu devaneio.

- Ela terminou comigo uma semana após meu aniversário.

- Ai!

- Pela internet.

- Cruel essa menina.

- Uma semana após eu ter perguntado se ela ia me deixar, e ela falar que não tinha nada a ver.

- Mulher nenhuma admitiria uma coisa dessas.

Uma nova melodia de teclado começa a invadir o salão, e com uma voz incrivelmente potente e firme a moça começa a cantar “Castigo” de Nelson Gonçalves.

- O que há com o povo daqui e o Nelson Gonçalves?

- O dono daqui é Gaucho e fanático por ele. A maioria das músicas ali são dele. – Gaetano responde com uma risada discreta.

- Você pelo jeito é um freqüentador.

- É. Eu moro num prédio do outro lado da rua, então já viu.

- E aquela moça?

- Linda não?

- É. E que voz.

- Ela é o anjo do lugar. – Gaetano toma um gole demorado observando Nelson olhar a cantora. – Mas me diga, está sozinho desde então?

- Bom. Casos aqui e ali, mas nunca mais encontrei alguém que mexesse comigo.

- Até agora?

- Como assim?

Gaetano apenas sorri e olha para cantora, acompanhando o rítmico da música com o copo. Nelson volta a observar a cantora atentamente. As luzes coloridas contornando seu rosto bem desenhado. Parecia ter pouco mais de vinte anos, mas a voz era constante e firme. Cantava de forma emocionada, mas sem caretas.

- Meu caro, a mulher que te deixa assim não te merece mais.

- Fácil falar.

- Mas é preciso.

Nelson fica olhando sem saber o que responder, quando percebe que a moça saiu do palco e vinha caminhando em sua direção após o fim da música. Sem jeito e tentando disfarçar pega o copo de cerveja e beberica de forma quase cômica antes de perceber que a moça para ao lado de Gaetano e dá um beijo em seu rosto.

- Nelson essa é minha filha Renata.

- Oi. – Responde meio sem jeito e visivelmente corado de vergonha.

- Oi. – Retruca dando um beijo no rosto corado de Nelson e o encarando com seus olhos castanhos e oferecendo uma boca sorridente.

No ônibus, a última parada…

Publicado: dezembro 4, 2009 em Contos
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Bernardo olhou para trás no ônibus e teve a impressão que seria última vez que iria vê-la. Se lembrou da primeira vez que a viu, em uma situação tão parecida, quando entrou no ônibus e lá estava ela sentada ao lado de sua mãe. Na primeira parada tomou coragem e foi lá falar com ela.

- Estou indo prestar vestibular para música. – Ela falou com seus olhos tão brilhantes quanto seu sorriso, quando já dividiam um chocolate após o início habitual de conversa.

Bernardo não consegui evitar o sorriso vendo aquela pessoa graciosa, com seu jeito meigo a sua frente. – Vou torcer para que consiga. É fácil me achar no instituto de história. – Ela sorriu e saiu correndo para perto de sua mãe, que já acenava para voltarem ao ônibus.

Tentou olhar novamente e viu que ela apenas olhava pela janela do ônibus, de uma forma fixa. Novamente viajou nas lembranças, agora pensando no seu jeito encabulado no dia que se reencontraram no campus. – Oi, Bernardo? Se lembra de mim? – Ela olhava com os mesmo olhos brilhantes mas de uma forma obtusa, ora para o lado, ora para cima, como se quisesse se esconder. – Claro, eu esperava encontrar você.

- Ah, é? – Agora ela olhava diretamente e sorria. – É, eu vi seu nome na lista dos aprovados. Ou pelo menos achei que era você. – Bernardo agora era quem olhava encabulado para o lado.  – Só sabia seu nome, mas achei que você devia ter um sobrenome italiano – brincou.

Essa lembrança o fez sorrir levemente e voltar ao presente, onde estava na porta do ônibus, mas olhando fixamente para trás.

- Vai descer? – O motorista perguntou olhando de canto de olho.

Ajeitou sua mochila no ombro e apenas olhando para frente desceu. – É o que me resta, companheiro. É o que me resta.

Parafraseando…

Publicado: julho 31, 2009 em Elocubradas

“A beleza é o poder com o qual a mulher alucina o amante e aterroriza o marido”

- Dr. Leon Wexler , Advogado criminalista e sócio do Dr. Paulo Mandrake.

Perfeição.

Publicado: julho 8, 2009 em Contos

Ela costumava sentar e tomar seu café ali, sem ser incomodada mesmo com a cafeteria cheia de pessoas tomando seus cafés elaborados e chiques, procurando fugir de algo, conversar com alguém, paquerar, desabafar, ler. Apreciava seu café mocha (algo feito com café, chocolate, alguma coisa do leite e mais sabe-se lá o que, com sabor baunilha), distraída observando o movimento na rua lá fora.

- Posso me sentar aqui? – Uma voz grave, masculina lhe tirou de seu devaneio fazendo-a desviar seu olhar, primeiro para as mesas em volta, todas ocupadas por alguém, um casal, alguns amigos, depois para o dono da voz. Viu um homem alto, aparentando seus 30 e poucos anos, talvez mais, talvez menos, elegante e sem aparentar ser um psicopata ou algum tipo de lunático oferecendo-lhe um sorriso simpático, enquanto segurava um daqueles copos com alguma bebida feita a base de café e sabe-se Deus lá o que. Esforçou para retribuir o sorriso e com pouco mais de um muxoxo respondeu – Porque não?

Ficou um momento observando a figura agora sentada a sua mesa, até que percebeu que praticamente o encarava, o que a fez desviar o olhar encabulada quando percebeu que ele a olhava de volta.

- Espero não atrapalhar seus pensamentos.

- Não, tudo bem. As vezes é bom um pouco de compania.

- E não tem tido muita? – Sentiu-se encabulada diante do sorriso gentil, mas ao mesmo tempo sarcástico que acompanhou a pergunta.

- Isso está ficando meio…

- Pessoal?

- Acho que sim. – Começou a observar enquanto ele tateava os bolsos a procura de algo.

- E não gosta quando as conversas ficam – sorriu de esgueio enquanto puxava um maço de camel do bolso do blazer – pessoais? – Sem esperar uma resposta, puxou um cigarro perguntando  – Se incomoda?

- Se precisa….

- Não preciso, apenas queria.

- Não deveria fumar. Faz mal, sabia?

- Agora isso está ficando bem pessoal – disse sorrindo – Mas eu não fumo.

- E o que ia fazer com isso, então? – Perguntou divertida apontando o cigarro.

- Eu não sou um habitué do cigarro. Fumo eventualmente, quando preciso de ajuda no cérebro.

- Ajuda no cérebro? – Sorria divertida enquanto seu interlocutor apalpava os bolsos da calça retirando o isqueiro e erguendo-o como um troféu.

- É, estimula as sinapses, sabe? Mas vocë não me respondeu se lhe incomoda.

- Vá em frente, o pulmão é seu. – Ficou observando enquanto acendia o cigarro, com um trago demorado e se sobressaltou um pouco quando ele lhe estendeu a mão.

- Ricardo… – Apertou-lhe a mão com suavidade.

- Vitória. – Bebericou seu café e respirou fundo. – Porque precisa estimular suas sinapses, Ricardo.

- Para superar um problema e para escrever sobre ele.

- Escrever sobre ele?

Ricardo respirou fundo, olhando aparentemente para o nada ao seu lado. – O que é melhor para o escritor do que reciclar suas experiëncias reais, irreais, surreais e sensoriais? – Olhou Vitória nos olhos, enquanto dava outra tragada profunda. – O que melhor do que nossa vida e a vida alheia emprestada?

- É um escritor?

- Ou finjo ser. – Seus olhos desviaram dos olhos de Vitória para o cinzeiro na mesa. Tornou a sorrir. – O poeta é um fingidor, finge que é dor, a dor que deveras sente.

- Bonito.

- Não é meu, e também não sou um poeta. Meu amor escoa em prosa.

- Escoa?

- O que é o amor? – Um trago profundo acompanhou a pausa após a pergunta, – Eu sou um cara perfeccionista, segundo meus amigos. Procuro a perfeição em tudo, inclusive nas mulheres.

- Isso deve ser complicado, – Vitória sorria divertida e interessada pela conversa de seu interlocutor.

- Várias vezes mostravam garotas na rua, achando-as lindas, perfeitas.

- E não eram?

- Eu sempre acho um defeito, – Seu sorriso era ao mesmo tempo divertido e triste.

- E onde entra o amor nisso?

Ricardo brincou cutucando a cinza no cinzeiro com o cigarro ainda aceso, mas apagando seu sorriso triste e mudando para uma expressão serena olhando profundamente nos olhos de Vitória.

- Tinha essa garota, eu a conheci por acaso, por causa de amigos. A princípio não a achei linda, era bonita no máximo. – Baixou os olhos para a mesa com um esboço de sorriso – Nas primeiras vezes nos encontramos com amigos, até que um dia aconteceu. E durou bastante.

- E?

- Ela se tornou perfeita. – Agora seu sorriso era completo – Não logo de cara, mas depois de um tempo era linda, o seu humor caustico era perfeito, tudo nela era maravilhoso.

- E o que aconteceu com essa garota?

- A vida. Ela. Nós. Não sei. Acabou.

Vitória tentava decifrar que expressão era aquela no rosto de Ricardo. Seria tristeza? Pesar? Concentração? Saudosismo? Agora ele parecia menos estranho e aos poucos se tornava quase…

– Obrigado pela companhia e desculpe – A frase cortou seu pensamento.

- Já vai?

- Acho que tive alguma inspiração. A conversa ajudou bastante.

- E eu não mereço algo? – Vitória esboçava um sorriso divertido.

- E o que posso fazer por você, Vitória – Ricardo estava contagiado pela expressão de divertimento.

- Me torne perfeita…

Vidas recicladas?

Publicado: julho 6, 2009 em Elocubradas

Sabe, eu venho pensando em voltar a escrever. Mas primeiro pensei: “O que é escrever para mim?”. Isso me lembrou uma pergunta que uma pessoa me fez uma vez: “Como você escreve essas coisas? De onde vem?” (Espero que vocês descubram o que são “Essas coisas”).

Primeiro pensei,  que eu “roubo vidas”,  me aproprio de coisas que vi. Mas não é só isso, pois tem coisas que eu vivi. Eo mais importante, coisas que criei…

Logo cheguei a uma concolusão que eu reciclo vidas…

E espero reciclar várias novamente…

A Espera…

Publicado: julho 6, 2009 em Contos

Você já reparou como o tempo demora para passar quando estamos esperando alguém?

Era nisso mesmo que Márcia pensava enquanto olhava para o celular pela centésima vez desde que sentara ali há cinco minutos.

Não sabia bem se estava olhando a hora ou esperando uma mensagem avisando do atraso, quem sabe uma ligação perdida.

Mas tudo que via eram as horas passando e o desânimo chegando.

Começou a olhar a sua volta, tentando se distrair com o movimento, quando seu olhar se cruzou com o de alguém.

Estavam sentados em lados opostos da sala, mas os olhos se encontraram sem cerimônia. A princípio disfarçou, continuou com a cara fechada, olhou para o celular mais uma vez. Novamente os olhares se cruzaram e ficou encabulada. Disfarçou novamente, mexeu nos cabelos, olhou para o lado, fingiu procurar algo na bolsa. Percebeu que do outro lado tentava disfarçar também, se concentrar em algo que lia. Esse baile de olhares e disfarçadas demorou mais de 10 minutos. Márcia já esquecia a impaciência, olhava menos para o celular e mais para aqueles olhos que a atraiam feito magnetos. Se sentiu confusa, sentiu a respiração aumentando. Olhou longamente pela janela, e quando deu por si olhava para uma cadeira vazia. Abaixou lentamente o olhar distraída, e quando percebeu alguém sentava ao seu lado. Ergueu os olhos e ela estava lá ao seu lado. Sentiu vergonha por ter se sentido tão atraída por uma mulher, e ao mesmo tempo desejo. Não falou nada quando sentiu a mão tocando seu rosto…