Noite de lua…

Publicado: agosto 17, 2010 em Contos

Nelson caminhava sem muita direção, mas com uma certa melancolia nos olhos baixos. Já tinha caminhado boa parte da Paulista e agora andava sem rumo pela região, meio em direção ao Bexiga, ou a Bela Vista, já não sabia mais bem. Quando avistou um misto de padaria com boteco sentiu uma pontada de sede na garganta. Não daquelas sedes que se matam com água, mas com certeza uma cerveja seria uma boa companhia. Talvez a única que ele precisasse agora.

Passou pela calçada apinhada de pessoas em pé tomando cerveja com um copo e uma garrafa na mão e pelas poucas mesas na calçada, alcançando o interior do lugar viu que era bem maior do que parecia de fora. Várias mesinhas vazias com um ou dois gatos pingados no salão. Mais ao fundo um pequeno palco com um karaokê tocando sozinho em meio a luzes coloridas piscastes. Avançou até o meio do balcão e se sentou.

- O que vai ser? – Perguntou o balconista passando o pano no balcão de alumínio amassado.

- Uma original.

O balconista vai até uma geladeira e pega uma garrafa. Ao mesmo tempo um senhor que estava em uma das mesas do lugar vai até o pequeno palco com o microfone do karaokê, aperta alguma coisa na máquina e um som de sintetizador preenche o salão antes de a voz desafinada começar a tentar acompanhar a melodia cantando “Renúncia” de seu “xará” Nelson Gonçalves . O balconista coloca a garrafa e um copo americano na mesa, despertando Nelson do transe induzido pela péssima interpretação musical.

- Mais alguma coisa?

Nelson sente seu estômago protestar ligeiramente, olha para o cardápio pendurado na parede por um instante e resolve pedir um misto quente. Começa a bebericar sua cerveja sem grande interesse quando percebe uma figura extremamente expansiva entrar no salão. É um senhor de uns cinqüenta anos, vestido de forma quase caricata, lembrando um daqueles malandros de filme antigo. Ele observa enquanto a curiosa figura avança pelo salão cumprimenta quase todos os comensais do ambiente, acena para o desafinado cantor e se senta ao lado de Nelson no balcão.

- Tudo bem, doutor? – O balconista cumprimenta o recém chegado enquanto já vai servido uma dose de vinho de uma qualidade surpreendentemente boa para o ambiente.

- Vamos indo, João, vamos indo. – O “doutor” toma um gole do vinho e grita. – Tudo certo aí, Chico?

O chapeiro que estava entretido com o a confecção do misto quente de Nelson apenas acena com o pegador em sua mão sem nem se virar. – Você vai gostar do misto do Chico. – Comenta agora se dirigindo para Nelson que olhava estoicamente para o nada.

- Hum?

- Qual o nome dela?

- Ela quem?

- A garota pela qual voce está sofrendo.

- Como sabe que o misto é para mim?

- Porque o povo lá fora está beliscando porções, aqui dentro só bebe, sobra você. Então? Qual o nome dela?

- Por que acha que tem alguma garota?

- Olhe onde voce está.

Nelson olha para os dois lados. – Tem bastante gente nova ali.

- É, lá fora, para ver, ser vista, paquerar. Fazendo esquenta como vocês falam, não é? Você está aqui dentro. E não acho que seja um entusiasta de karaokê.

Nelson continua olhando meio contrariado para seu interlocutor, e percebe uma mudança em seu olhar, quase como se tivesse sido arrebatado por uma revelação. Olha Nelson de cima a baixo. – Ou será que é o nome dele?

Nelson arregala os olhos. – Não! – Desviando o olhar responde. – Luana.

- Bonito nome. Meio lunático. – afirma meio sorrindo.

- Péssima piada. – Retruca logo antes de matar o copo em um gole só.

- Gaetano – estendendo a mão.

Nelson aperta a mão, um aperto de mão firme de ambos. – Nelson.

- Então, Nelson. Foi hoje?

- Uns dois anos já. – Responde matando outro copo de cerveja em um gole.

Gaetano faz um gesto para o balconista que traz mais uma cerveja juntamente com o misto quente. Serve a cerveja nos dois copos enquanto Nelson pega o misto quente de forma desinteressada.

- Dois anos? Bastante tempo para sofrer assim. Devia ser uma mulher e tanto.

- É. – interrompe a mordida olhando pensativo para o queijo derretido. – Acho que era sim.

A musica volta a um volume baixo quando a sofrível interpretação chega ao fim.

- Data especial?

- Meu aniversario foi semana passada.

- Agora voce me perdeu.

Nelson desvia seu olhar ao ouvir um som de passos no salão e se surpreende ao ver uma jovem moça, de cabelos compridos presos em um rabo de cavalo, de uma beleza clássica cruzar o salão com uma postura firme, passos decididos até o palco do karaokê, sendo seguida por olhares, inclusive o de Nelson.

- O que tem seu aniversário? – Gaetano pergunta, despertando Nelson de seu devaneio.

- Ela terminou comigo uma semana após meu aniversário.

- Ai!

- Pela internet.

- Cruel essa menina.

- Uma semana após eu ter perguntado se ela ia me deixar, e ela falar que não tinha nada a ver.

- Mulher nenhuma admitiria uma coisa dessas.

Uma nova melodia de teclado começa a invadir o salão, e com uma voz incrivelmente potente e firme a moça começa a cantar “Castigo” de Nelson Gonçalves.

- O que há com o povo daqui e o Nelson Gonçalves?

- O dono daqui é Gaucho e fanático por ele. A maioria das músicas ali são dele. – Gaetano responde com uma risada discreta.

- Você pelo jeito é um freqüentador.

- É. Eu moro num prédio do outro lado da rua, então já viu.

- E aquela moça?

- Linda não?

- É. E que voz.

- Ela é o anjo do lugar. – Gaetano toma um gole demorado observando Nelson olhar a cantora. – Mas me diga, está sozinho desde então?

- Bom. Casos aqui e ali, mas nunca mais encontrei alguém que mexesse comigo.

- Até agora?

- Como assim?

Gaetano apenas sorri e olha para cantora, acompanhando o rítmico da música com o copo. Nelson volta a observar a cantora atentamente. As luzes coloridas contornando seu rosto bem desenhado. Parecia ter pouco mais de vinte anos, mas a voz era constante e firme. Cantava de forma emocionada, mas sem caretas.

- Meu caro, a mulher que te deixa assim não te merece mais.

- Fácil falar.

- Mas é preciso.

Nelson fica olhando sem saber o que responder, quando percebe que a moça saiu do palco e vinha caminhando em sua direção após o fim da música. Sem jeito e tentando disfarçar pega o copo de cerveja e beberica de forma quase cômica antes de perceber que a moça para ao lado de Gaetano e dá um beijo em seu rosto.

- Nelson essa é minha filha Renata.

- Oi. – Responde meio sem jeito e visivelmente corado de vergonha.

- Oi. – Retruca dando um beijo no rosto corado de Nelson e o encarando com seus olhos castanhos e oferecendo uma boca sorridente.

Comentários
  1. Luana Patos disse:

    Gostei muito. Parabéns!

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